Pula Come
Dorme Abraça Anda
Foge Caminha Volta
Fogo Carinho Cama Vinho
Sorriso Dinheiro Dúvida
Esmalte Convite Bebida
Comida Trabalho Canseira Dureza
Loucura Igreja
Pragueja Empolga Medita
Fé Quebra Paz
Viagem Dor Cabeça
Só Devolve Aprende

Pula Come
Dorme Abraça Anda
Foge Caminha Volta
Fogo Carinho Cama Vinho
Sorriso Dinheiro Dúvida
Esmalte Convite Bebida
Comida Trabalho Canseira Dureza
Loucura Igreja
Pragueja Empolga Medita
Fé Quebra Paz
Viagem Dor Cabeça
Só Devolve Aprende

É cedo e meus olhos doem. Por não falarem, doem por que reclamam que ainda não eram horas, o corpo sempre demora mais do que 360 para descansar… E quem disse que me importo? No corpo mando eu, porque no tempo manda o relógio e o comando sempre é a função de despertador. Mas já estou me desviando do foco.
É que passo pela Praça Osório, o nome importa menos do que o verde que ela tem e o fluxo de pessoas apressadas que vem e vão e acabam sempre em trabalhos e escolas. Desta vez há um parado, romântico, meio inclinado e quase excitado tocador de saxofone.
É um diletante de caixa aberta, pronta para reunir os trocados que vão jogando; vive daqueles que simpatizam, que gostam de algumas notas incapazes de formar inteira sinfonia. E eu, ainda dormindo, só conseguindo ir para frente, vou andando, caminhando rente à caixa aberta e convidativa. Quase paro e reclamo, meio incomodado.
É que em mim resvalam as notas fugazes (não os olhos do tocador, que continuam baixos) e vão me entristecendo, me provocando, me fazendo pensar em jogar um trocado naquela caixa aberta. E a mão, já quase aberta, desce para o bolso em que se encontram os trocados destinados aos corriqueiros gastos de um dia de trabalho. Mas então, passo sem nenhum ato além de passar.
É que minha sina cheia de inércia sempre vence e me convence a seguir no mesmo ritmo. E o tocador e o saxofone, que já iam ficando para trás, continuam a enviar notas que vêm correndo e chegam resfolegando, sussurrando cada vez mais fraco até desistirem.

Por telefone, conversava com minha amiga de Bangladeshse,, que eu conhecia já fazia alguns anos. No entanto, jamais a havia conhecido pessoalmente.
Eu esperava uma ligação dela na última semana. Demorou um pouco em relação ao combinado para que chegasse o telefonema, e isso estava me deixando ansioso. Seria a primeira conversa por telefone também, já que nossas anteriores haviam sido só por MSN.
E, bem, qual não foi minha surpresa quando ela disse que estava enrascada. Estava no Brasil! Mas estava enrascada. Teve problemas com a polícia brasileira, porque aparentemente não soube se comunicar bem em português, e por isso foi presa.
Parece que ela é suspeita de contrabando. E não sei o que foi que ela fez de tão intimidador aos policiais, que eles resolveram até prendê-la, por prevenção. Nem sei se isso é lícito, aliás.
O fato é que, quando finalmente eu esperava encontrá-la, em cerca de um ano ou dois anos, ela me aparece desse jeito. E me liga para pedir ajuda. Não sei como resolver essa questão. Aliás, não sabia. Até que telefonei à delegacia, troquei umas palavras com os policiais, e a coisa foi esclarecida. Também, é no que dá a moça não saber inglês, trazer lembranças biológicas do país dela e se comportar como uma loucona.
Ainda bem que meu bengali até que tá melhorando. Vou precisar agora, pra mostrar a cidade pra moça e servir de companhia…
Por Maurício Kanno

Nem para lá ou cá
o homem mola
Se por ali se atola em decisões
aqui se rala, se esfola
E em rotina de ir
e vir junto com o tempo
faz do momento chegada também partida
A despedida dentro do retorno

O agente encontrou a cabeça, enfim. Sim, era uma bela cabeça. Cabelos bonitos, bem cuidados, bem penteados. Traços finos, delicados. Uma expressão simpática, bonita. Até meiga.
Mas estava fora do corpo. Apenas pendurada no varal. Mas não se preocupe, não estava morta. Apenas estava fora do corpo. Ainda vivia. E falava.
- Por que a colocaram no varal? – pergunta o agente.
Não houve resposta, a princípio.
- Por quê? – repetiu o agente.
- Foi para que a pudéssemos movimentar melhor – respondeu um dos anfitriões.
- Mas para quê colocá-la no varal? – insistiu o agente.
- Ela tem vantagens assim. Tanto pode enxergar as pessoas do alto, como também podemos movimentá-la e variar seu ângulo de visão sem…
- Sem?
- Sem tocar nela.
A cabeça de mulher abaixou os olhos, movimento repetido pelo agente..
Por Maurício Kanno