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Volta Palavra

abril 2, 2011

Pula Come

Dorme Abraça Anda

Foge Caminha Volta

Fogo Carinho Cama Vinho

Sorriso Dinheiro Dúvida

Esmalte Convite Bebida

Comida Trabalho Canseira Dureza

Loucura Igreja

Pragueja Empolga Medita

Fé Quebra Paz

Viagem Dor Cabeça

Só Devolve Aprende

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O pedestre e o saxofonista

março 27, 2011

É cedo e meus olhos doem. Por não falarem, doem por que reclamam que ainda não eram horas, o corpo sempre demora mais do que 360 para descansar… E quem disse que me importo? No corpo mando eu, porque no tempo manda o relógio e o comando sempre é a função de despertador. Mas já estou me desviando do foco.

É que passo pela Praça Osório, o nome importa menos do que o verde que ela tem e o fluxo de pessoas apressadas que vem e vão e acabam sempre em trabalhos e escolas. Desta vez há um parado, romântico, meio inclinado e quase excitado tocador de saxofone.

É um diletante de caixa aberta, pronta para reunir os trocados que vão jogando; vive daqueles que simpatizam, que gostam de algumas notas incapazes de formar inteira sinfonia. E eu, ainda dormindo, só conseguindo ir para frente, vou andando, caminhando rente à caixa aberta e convidativa. Quase paro e reclamo, meio incomodado.

É que em mim resvalam as notas fugazes (não os olhos do tocador, que continuam baixos) e vão me entristecendo, me provocando, me fazendo pensar em jogar um trocado naquela caixa aberta. E a mão, já quase aberta, desce para o bolso em que se encontram os trocados destinados aos corriqueiros gastos de um dia de trabalho. Mas então, passo sem nenhum ato além de passar.

É que minha sina cheia de inércia sempre vence e me convence a seguir no mesmo ritmo. E o tocador e o saxofone, que já iam ficando para trás, continuam a enviar notas que vêm correndo e chegam resfolegando, sussurrando cada vez mais fraco até desistirem.

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Estrangeira presa

março 18, 2011

Por telefone, conversava com minha amiga de Bangladeshse,, que eu conhecia já fazia alguns anos. No entanto, jamais a havia conhecido pessoalmente.

Eu esperava uma ligação dela na última semana. Demorou um pouco em relação ao combinado para que chegasse o telefonema, e isso estava me deixando ansioso. Seria a primeira conversa por telefone também, já que nossas anteriores haviam sido só por MSN.

E, bem, qual não foi minha surpresa quando ela disse que estava enrascada. Estava no Brasil! Mas estava enrascada. Teve problemas com a polícia brasileira, porque aparentemente não soube se comunicar bem em português, e por isso foi presa.

Parece que ela é suspeita de contrabando. E não sei o que foi que ela fez de tão intimidador aos policiais, que eles resolveram até prendê-la, por prevenção. Nem sei se isso é lícito, aliás.

O fato é que, quando finalmente eu esperava encontrá-la, em cerca de um ano ou dois anos, ela me aparece desse jeito. E me liga para pedir ajuda. Não sei como resolver essa questão. Aliás, não sabia. Até que telefonei à delegacia, troquei umas palavras com os policiais, e a coisa foi esclarecida. Também, é no que dá a moça não saber inglês, trazer lembranças biológicas do país dela e se comportar como uma loucona.

Ainda bem que meu bengali até que tá melhorando. Vou precisar agora, pra mostrar a cidade pra moça e servir de companhia…

Por Maurício Kanno

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Homem mola

março 16, 2011

Nem para lá ou cá
o homem mola
Se por ali se atola em decisões
aqui se rala, se esfola

E em rotina de ir
e vir junto com o tempo
faz do momento chegada também partida
A despedida dentro do retorno

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A cabeça de mulher

março 11, 2011

O agente encontrou a cabeça, enfim. Sim, era uma bela cabeça. Cabelos bonitos, bem cuidados, bem penteados. Traços finos, delicados. Uma expressão simpática, bonita. Até meiga.

Mas estava fora do corpo. Apenas pendurada no varal. Mas não se preocupe, não estava morta. Apenas estava fora do corpo. Ainda vivia. E falava.

– Por que a colocaram no varal? – pergunta o agente.

Não houve resposta, a princípio.

– Por quê? – repetiu o agente.

– Foi para que a pudéssemos movimentar melhor – respondeu um dos anfitriões.

– Mas para quê colocá-la no varal? – insistiu o agente.

– Ela tem vantagens assim. Tanto pode enxergar as pessoas do alto, como também podemos movimentá-la e variar seu ângulo de visão sem…

– Sem?

– Sem tocar nela.

A cabeça de mulher abaixou os olhos, movimento repetido pelo agente..

Por Maurício Kanno

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Um fundo musical

março 7, 2011

Cantei uns 456 canções sem ritmo

Até que ouvisse tocando de longe

Dentro desta cachola a velha vitrola

Senhora de meus discos 1980 rotações

Que aparecem nas convoluções nervosas

Todas as noites em que emprego insone

A inútil estratégia de contar carneirinhos

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Profundezas rotineiras

março 4, 2011

Enfim eu poderia dormir. Ao menos é o que eu pensava. Na verdade, não parecia servir tanto de descanso, porque eu precisava ficar me segurando em uma corda bem amarrada em mim para não cair.

Era uma estranha sensação. Como é que até para dormir não se pode ficar tranquilo? Sossegado? Não se merece sempre essa segurança?

Mas no mundo em que eu estava isso não era possível. Por alguma razão, tudo era alto. Altíssimo. Longe demais, fora do alance da vista em altura.

Se eu estava numa cama, que era, aliás, de uma largura milimétrica, dava para perceber que até o vento fazia barulho ao passar por meu braço e minha perna e fazer vuuush até as profundezas mais imperceptíveis.

Antes de dormir, eu me lembro de um exercício ou esporte que eu praticava: giro rápido, rapidíssimo, em volta de um pilar. Um pilar que era liso e pontiagudo no alto. Parecia um poste gigante. Meio místico, sei lá. Mas existia. E só sei que eu girava nele. Provavelmente para evitar cair.

E não havia, aliás, só um desse pilar pontudo, mas vários. Assim, isso servia até como meio de transporte, evitando cair nas profundezas absurdas. E totalmente desconhecidas, escuras. Era pavoroso. Mas as pessoas que se conhece lá… não devem mais existir.

Por Maurício Kanno

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